• Vítor Rios (Gigito)

Entrevista com o banjoísta Danny Barnes



Nas primeiras vezes em que eu estava descobrindo e me interessando pelo bluegrass eu encontrei, por acaso, uma banda chamada Bad Livers. Aquele nome me chamou a atenção e resolvi dar uma chance. Não demorou para que eu estivesse completamente cativado pelo som daquele grupo que tinha Danny Barnes (banjo), Mark Rubin (baixo) e Ralph White (fiddle) na formação. O álbum era o “Delusions of Banjer”, que alternava entre composições próprias e versões criativas e únicas do repertório do bluegrass.


Bem, pouco tempo depois eu estava com um banjo em meu colo, tentando decifrar e aprender esse instrumento até então esquisito, mas também fascinante. Naquela altura eu já tinha ouvido outros trabalhos não só do Bad Livers, mas como também do próprio Danny Barnes – que hoje segue carreira solo. Seu último álbum “Man on fire” foi indicado ao Grammy e trás, mais uma vez, muito da capacidade criativa que ele pode expressar através do banjo e suas composições. Sua versatilidade lhe possibilita não só acompanhar músicos em grupos acústicos, como David Grisman, mas até fazer shows acompanhado do seu banjo e um computador, em que se processa em tempo real diversas camadas do instrumento e sons sintetizados. Devo dizer que o seu trabalho, seja no Bad Livers ou carreira solo, foi o que me puxou de vez para o universo do banjo e do bluegrass, me levando a um interesse crescente por outros grupos e músicos desse estilo.


Ouça o álbum Delusions of Banjer aqui:

Após algumas trocas de mensagens pelas redes sociais, me senti impelido a propor uma entrevista que ele felizmente aceitou e topou responder a algumas perguntas.



1. O banjo foi seu primeiro instrumento? O que lhe chamou atenção nele que te fez pensar “eu quero tocar esse instrumento”?

Meus pais tocavam música country antiga em casa, desde meu nascimento. Algo naquele som me atraiu. Também a maneira que as mãos se movimentam parecem não se alinhar com a música, como é quando um piano toca subindo e descendo, o movimento faz sentido, mas quando você vê alguém tocando banjo, isso parece estranho de alguma forma. Eu também vi Flatt & Scruggs e John Hartford na TV, nos anos sessenta. Costumava ter muitos banjoistas na TV.


2. Não posso deixar de mencionar sua performance no Bad Livers. Na primeira vez que escutei vocês eu imediatamente me dei conta que tinha algo diferente ali, que não era feito na maioria das bandas de bluegrass com banjo. Como vocês desenvolveram esse jeito próprio? Veio naturalmente ou era realmente uma tentativa de fazer algo diferente? Bem, Mark e eu somos grandes fãs de música, então nós escutamos muitos tipos diferentes de música tanto quanto escutamos bluegrass. A maioria dos nossos amigos estavam em bandas de punk, metal ou outras coisas naquela época. Nós também éramos caras do punk rock, então ouviamos muitas coisas diferentes e nós apenas tocávamos essas coisas nos shows.


3. Isso me traz a essa próxima questão. Você é claramente um músico com muitas influências e isso é muito claro na maneira que você coloca esses diversos contextos em uma “conversa” na sua música. Você toca com grupos de música acústica, mas também faz shows acompanhado de um computador e sons sintetizados. O seu banjo me parece ser um catalisador disso tudo e não só um instrumento que toca bluegrass. Como você pensa isso no seu processo criativo? Eu uso o banjo como um lápis para colocar as ideias e músicas para fora. Isso me permite pensar um pouco diferente. O banjo também tem um som orquestral muito útil. 4. Você é um músico que até a pandemia vivia em turnês e de repente se viu obrigado a parar. Você acha que esse acontecimento pode influenciar sua maneira de pensar e fazer música? Sim, é como bater a cabeça contra uma parede de tijolos, isso definitivamente mudará as coisas. E eu nem tenho certeza do que fazer com todo esse negócio. Nunca vi algo como isso acontecer. Não tenho certeza do que fazer com essa coisa toda. Uma coisa, porém, é que nunca percebi em um milhão de anos quantas pessoas más existem no mundo. Eu pensava que era mais ou menos 10% ou menos. Acontece que não, é muiiito mais alto que isso.. então esse aspecto me deixou um pouco confuso.

5. O que você pensa sobre músicos de outros países que tocam banjo e bluegrass? Aqui no Brasil há um movimento crescente de pessoas interessadas pelo banjo, apesar de não termos uma cena de bluegrass propriamente dita.

Ah, cara, isso é muito legal! Isso traz coisas novas para o banjo. O Brasil, meu deus, tem tanta música fantástica que saiu daí, por exemplo Jacob do Bandolim e Sepultura! O que você mesmo está fazendo é fantástico e eu adoro que você faça isso, que seja capaz de fazer e tenha um contexto para fazer isso.

6. Essa é do meu amigo banjoista Wagner: quais os três conselhos que você dá para quem está aprendendo a tocar banjo? Earl, Ralph, Don. [Nota: Aqui ele se refere aos banjoístas Earl Scruggs, Ralph Stanley e Don Reno]


7. Seu último trabalho lançado foi o “Man on fire”, álbum indicado ao Grammy nesse ano. Quais são os planos para os próximos lançamentos?


Tenho muitas coisas em andamento. Escrevo e faço coisas constantemente. Há cerca de cinco registros de minha autoria já feitos. Bad Livers provavelmente irá lançar algo novo. [David] Grisman tem um monte de músicas novas e eu também já estou com um monte de músicas novas.


8. Finalmente eu gostaria de lhe agradecer pela gentileza em topar fazer essa entrevista. Muito obrigado! Eu gostaria de deixar esse espaço caso você queira dizer mais alguma coisa.


Eu só queria dizer que a mensagem no meu trabalho é: dignidade para as pessoas pobres. Eu estou do lado das pessoas pobres de todas as raças e nações. Também da Terra, das pessoas idosas, das pessoas doentes, crianças e animais. Eu espero inspirar os outros de não serem alguma combinação entre estupidez e maldade. Eu amo a música.